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Ofertas de Manjares – Capítulo 7

A palavra hebraica empregada para “oferta de manjares” é minchah. Significa uma dádiva feita a outro, de ordinário, a um superior. Quando Caim e Abel apresentaram suas ofertas a Deus, segundo se relata em Gênesis 4: 3 e 4, foi uma minchah que ofereceram. Assim também foi a dádiva de Jacó e Esaú. Gen. 32:13. Foi uma minchah que os irmãos de José lhe apresentaram no Egito. Gen. 43:11. Na versão mais comumente usada, a de Almeida, a designação dada a essas ofertas é de “ofertas de manjares”. Esta empregaremos daqui em diante.

A oferta de manjares consistia em produtos vegetais que constituíam a principal alimentação do país: farinha, azeite, cereais, vinho, sal e incenso. Ao serem apresentadas ao Senhor, parte era queimada sobre o altar em memória, como cheiro suave ao Senhor. No caso de uma oferta queimada, tudo era consumido no altar. No da oferta de manjares, apenas uma pequena parte era posta sobre o altar; o resto pertencia ao sacerdote. “Coisa santíssima é, de ofertas queimadas ao Senhor”. Lev. 2:3. Como a oferta queimada significava consagração e dedicação, assim a oferta de manjares representava submissão e dependência. As ofertas queimadas importavam em inteira entrega da vida; as de manjares eram um reconhecimento de soberania e mordomia; de dependência de um superior. Eram um ato de homenagem a Deus, e um penhor de lealdade.

As ofertas de manjares eram geralmente usadas em relação com as ofertas queimadas e as pacíficas, mas não com as de expiação pelo pecado ou a transgressão. O registro no capítulo quinze de Números, declara: “Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando entrardes na terra das vossas habitações, que Eu vos hei de dar; e ao Senhor fizerdes oferta queimada, holocausto,  ou sacrifício, para Lhe cumprir um voto, ou em oferta voluntária, ou nas vossas solenidades, para ao Senhor fazer um cheiro suave de ovelhas ou vacas; então aquele que oferecer a sua oferta ao Senhor, por oferta de manjares, oferecerá uma décima de flor de farinha misturada com a quarta parte de um him de azeite.

E de vinho para libação preparareis a quarta parte de um him, para holocausto ou para sacrifício por cada cordeiro”. Num. 15:2-5. Ao ser oferecido um carneiro, a oferta de manjares era aumentada a duas décimas de flor de farinha; e quando se sacrificava um novilho, a oferta de manjares era de três décimas de flor de farinha. A oferta de libação era proporcionalmente aumentada. Vers. 6-10.

Quando a oferta de manjares consistia em flor de farinha, era misturada com azeite, sento posto incenso sobre ela. Lev. 2;1. Uma mão cheia dessa farinha com azeite e incenso era queimada em memória sobre o altar das ofertas queimadas. Era uma “oferta queimada” “de cheiro suave ao Senhor”. Lev. 2:2. O que restava depois de haver sido a mão cheia colocada sobre o altar, pertencia a Arão e a seus filhos. Era “coisa santíssima”, “de ofertas queimadas ao Senhor”. Vers. 3.

Quando a oferta consistia em bolos asmos ou coscorões, devia ser feita de flor de farinha misturada com azeite, partida em pedaços, sendo derramado azeite por cima. Vers. 4-6. Por vezes era cozida em sertã. Vers. 7 Quando ela se apresentava assim, o sacerdote tomava uma parte, queimando-a sobre o altar em memorial. Vers. 8 e 9. O que sobejava dos coscorões pertencia aos sacerdotes, sendo considerado santíssimo. Vers. 10.

Parece evidente que a oferta de farinha e coscorões asmos untados com azeite, visava ensinar a Israel que Deus é o mantenedor de toda a vida, que dEle dependiam quanto ao elemento diário; e que, antes de participar das abundâncias da vida, cumpria-lhes reconhece-Lo como o doador de tudo. Esse reconhecimento de Deus como a fonte de bênçãos temporais, levar-lhes-ia, naturalmente, o espírito à origem de todas as bênçãos espirituais. O Novo Testamento revela essa fonte como o Pão enviado do céu, o qual dá vida ao mundo. João 6:33.

É especialmente declarado que nenhuma oferta de manjares se devia fazer com fermento. Nem este nem mel deviam ser postos sobre o altar. Lev. 2:11. Não obstante, ambos, fermento e mel, podiam ser oferecidos como primícias. Quando assim usados, não se deviam ainda assim colocar sobre o altar. Vers. 12.

O fermento é símbolo de pecado. Por esta razão era proibido em toda oferta queimada.

Com razão se poderia indagar por que motivo o fermento e o mel, proibidos com outros sacrifícios, se podiam oferecer como primícias. Lev. 2:12. Conquanto o fermento seja símbolo de pecado, hipocrisia, malícia, maldade, (Lucas 12:1; I Cor. 5:8), não há nenhuma explícita declaração na Bíblia no que respeita à significação de mel. Os comentaristas , no entanto, concordam geralmente em que o mel representa aqueles pecados carnais que agradam aos sentidos, mas que implicam em corrupção. Muitos ainda consideram o mel simbólico da justiça própria e de interesse egoísta.

Se aceitamos esta interpretação, compreendemos que, ao dizer Deus que Israel devia levar fermento e mel como primícias, nos convida ao busca-lo a princípio, a levar-Lhe todas as nossas tendências pecaminosas e o acariciado mundanismo. Quer que vamos ter com Ele exatamente como estamos. Conquanto Deus não Se agrade do pecado, e este não Lhe seja um cheiro suave, e conquanto seu símbolo, o fermento, não deva ser levado ao altar, quer que cheguemos a Ele com todos os nossos pecados e justiça própria. Chegando, cumpre-nos deixar-Lhe tudo aos pés. Ele quer que Lhe levemos todos os nossos pecados. Então, devemos ir, e não pecar mais.

Nas ofertas de manjares, como nas outras, usava-se sal. É chamado o “sal do concerto do teu Deus”. “Em toda a tua oferta oferecerás sal”. Lev. 2:13. Todos os sacrifícios eram salgados, tanto de animais, como de vegetais. “Cada um será salgado com fogo, e cada sacrifício será salgado com sal”. Marcos 9:49. O sal tem um poder preservador. Torna também agradável a comida. Era uma parte vital de todo sacrifício. É simbólico do poder preservador e mantenedor de Deus.

Quando se levava uma oferta de manjares dos primeiros frutos, podiam-se usar “espigas verdes, tostadas no fogo; isto é, do grão trilhado de espigas verdes cheias”. “E sobre ela deitarás azeite e porás sobre ela incenso”. Uma parte era tomada em memorial pelo sacerdote, e queimada sobre o altar da oferta queimada. Lev. 2:14-16. “Grão trilhado de espigas verdes cheias”.

Conquanto não tenhamos que procurar uma significação oculta em cada expressão, não parece forçar o crer que o grão trilhado aqui simboliza Aquele que foi moído por nos, e por cujas pisaduras somos sarados. Isa. 53:1. As ofertas de manjares nos apresentam Cristo como o doador da vida e seu mantenedor, Aquele mediante quem e em quem “vivemos, e nos movemos, existimos”. Atos 17:28.

As ofertas de manjares pertence também a libação de vinho mencionada. Num. 15:10 e 24. Esta libação era apresentada perante o Senhor e derramada no lugar santo, conquanto não sobre o altar. Num. 28:7; Êxo. 30:9.

O molho movido ofertado como primícias da colheita, que devia ser movido perante o Senhor no segundo dia da páscoa, era também uma oferta de manjares. Lev. 23:10-12. Outra oferta de manjares eram os dois pães de movimento cozidos com fermento, que se apresentavam ao Senhor como primícias por ocasião do pentecostes. Lev. 23:17-20. Outras ainda eram, a de manjares, oferecida diariamente por Arão e seus filhos, que devia ser uma oferta perpétua (Lev. 6:20), e a oferta do ciúme registrada em Números 5:15. Há também uma oferta que se acha registrada em Levíticos 5:11 e 12. Esta oferta, entretanto, era mais uma oferta de expiação pelo pecado, que de manjares.

Os pães da proposição, colocados semanalmente na mesa no primeiro compartimento do santuário, eram na verdade uma oferta de manjares apresentada ao Senhor. Seu nome em hebraico significa o “pão da Presença”, ou “pão da face”. Também é chamado “o pão contínuo”. Num. 4:7. A mesa é chamada a mesa da proposição, e a “mesa pura”. Lev. 24:6; II Crôn. 13:10 e 11. Os pães da proposição eram doze pães, cada um feito de duas dízimas de flor de farinha. Eram colocados em duas fileiras sobre a mesa, todos os sábados. Os sacerdotes chegados, que deviam oficiar na semana que vinha, começavam seu serviço com o sacrifício da tarde, no sábado. Os que se iam findavam o seu com o sacrifício do sábado de manhã. Tanto os sacerdotes que se iam como os que chegavam, uniam-se no retirar os pães da proposição, e em substituí-los. Enquanto os que deixavam o serviço removiam o velho pão, os recém-vindos colocavam o novo. Cuidavam em não retirar o velho enquanto o novo não estivesse pronto para ser posto na mesa.

O pão devia estar sempre sobre a mesa. Era o “pão da Presença”.

Quanto às dimensões dos pães, há divergências de opinião. Crêem alguns eu tinham cerca de meio metro por um metro. Conquanto isto não se possa demonstrar, é claro que duas dizimas de flor de farinha, como eram usadas para cada um, dariam um pão de tamanho considerável. Sobre esse pão se colocava  incenso em duas taças, isto é, um punhado em cada uma. Quando o pão era mudado no sábado, esse incenso era levado e queimado sobre o altar de oferta queimada.

O “pão da Presença” era oferecido a Deus “por concerto perpétuo”. Lev. 24:8. Era um testemunho constante de que Israel dependia de Deus quanto à manutenção, e uma contínua promessa da parte de Deus de que os havia de sustentar. Sua necessidade estava sempre perante Ele, e Sua promessa diante deles sem cessar.

O registro referente à mesa dos pães da proposição revela que havia pratos sobre a mesma, colheres, cobertas, tigelas “com que se hão de derramar os licores”. (Ver a nota à margem de Êxodo 25:29). Conquanto nada se diga em relação com isto, de se achar vinho sobre a mesa, é evidente que as tigelas aí estavam para o receber.  Havia uma oferta de bebidas, ou libação, a qual era ordenada em relação com o sacrifício diário. Números 28:7. O vinho devia ser oferecido “ao Senhor” ”no santuário”. A narração não declara onde era o vinho derramado no santuário, mas unicamente que devia ser oferecido ao Senhor. Diz-se-nos, entretanto, onde ele não deve ser derramado. Quanto ao altar de incenso, Israel era  proibido de oferecer “incenso estranho” sobre ele, “nem tão pouco derramareis sobre ele libações”. Êxodo 30:9. Se a libação devia ser oferecida no santuário; se não devia ser derramada sobre o altar; se havia sobre a mesa tigelas “com que se hão de derramar os licores”, parece claro que as mesmas continham vinho.

Não vai muita distância da mesa dos pães da preposição no Velho Testamento à mesa do Senhor no Novo Testamento. Lucas 22:30; I Cor. 10:21. A semelhança ressalta. O pão é Seu corpo, partido por nós. O cálice é o novo testamento em Seu sangue. I Cor. 11:24 e 25. Sempre que comemos o pão e bebemos do cálice, anunciamos “a morte do Senhor, até que venha”. Vers. 26.

“O pão da Presença” é simbólico dAquele que vive “sempre para interceder por” nos. Heb. 7:25. Ele é o “pão vivo que desceu do céu”. João 6:51.

Como foi declarado no princípio deste capítulo, as ofertas de manjares eram um reconhecimento da soberania de Deus e da mordomia do homem. As ofertas queimadas diziam: Tudo quanto eu sou pertence ao Senhor. As ofertas de manjares diziam: Tudo quanto possuo é do Senhor. A última acha-se na verdade incluída na primeira; pois quando um homem se dedica a Deus, essa dedicação inclui suas posses, bem como a ele próprio. É sem dúvida por isso que a oferta de manjares acompanhava sempre a oferta queimada. Números 15:4.

A oferta de manjares é um sacrifício definido e separado, denotando consagração de meios, como a oferta queimada indica a consagração da vida. A dedicação dos meios deve ser precedida da dedicação da própria vida. Uma é resultado da outra. A dedicação da vida sem a dedicação dos meios não é prevista no plano de Deus. A dedicação dos meios sem a da vida, não é aceitável. Ambas têm de ir juntas. Combinadas, formam um culto completo, agradável a Deus, “em cheiro suave ao Senhor”.

A idéia da mordomia merece ser salientada, numa época como a nossa. Alguns que têm o nome de cristãos falam alto em santidade e de sua devoção a Deus, mas suas ações nem sempre correspondem à profissão que fazem. Os cordões da bolsa mantêm-se apertados, os apelos passam desatendidos, enfraquece a causa de Deus. Tais pessoas precisam compreender que a consagração da vida envolve a consagração dos meios, e que uma sem a outra não agrada a Deus.

Por outro lado seria errôneo pensar que a dedicação dos meios seja tudo quanto Deus requer. Somos responsáveis por quaisquer talentos que possuamos, seja dinheiro, tempo ou dons naturais. De todos esses é Deus o verdadeiro dono, e nós nada mais que mordomos. Talentos como a música, o canto, a pintura, a palavra, a liderança, pertencem a Deus. A Ele devem ser consagrados. Cumpre-nos coloca-los sobre o altar.

A flor de farinha empregada na oferta de manjares era, em parte, produto do labor humano. Deus faz crescer o grão; dá sol e chuva; põe na semente as propriedades vitalizantes.

O homem colhe o grão, mói a farinha, separa todas as ásperas partículas da mesma, até que ela se torna em “flor de farinha”, isto é, fina. É então apresentada a Deus, seja como farinha, seja como pão preparado. Deus e o homem cooperam, e o produto resultante é consagrado a Deus. Representa o dom original do Senhor mais o trabalho do homem. É um devolver-Lhe o que é Seu com os juros. Deus dá a semente. O homem planta-a. Deus a rega. Multiplicada, ela é devolvida ao seu Doador que graciosamente a aceita.

Deus dá a todo homem, pelo menos, um talento. Espera que ele o aumente e multiplique. Não é aceitável a Deus apresentar-lhe o talento original, dar-Lhe de volta apenas aquilo que Ele nos deu. Ele quer que tomemos a semente que nos proporciona, a plantemos, cuidemos dela e a colhamos. Quer que o grão passe pelo processo que parece como que esmagar-lhe a própria vida, mas que, em realidade, a prepara para servir ao homem; quer que seja removido todo quanto é rude, e que Lha apresentemos como “flor de farinha”. Quer que os talentos sejam desenvolvidos e a Ele apresentados com juros. Nada menos servirá.

A flor de farinha representa a obra da vida humana. Simboliza os talentos aperfeiçoados. O que representava o pão da proposição relativamente a Israel, a oferta de manjares significava com respeito ao indivíduo. É a obra da vida consagrada em símbolo.

Quão significativa é a expressão “flor de farinha”! Farinha é grão esmagado entre as pedras do moinho. Era grão próprio para ser plantado, para perpetuar a vida. Agora, jaz esmagado, sem vida, Jamais poderá ser novamente plantado; está morto. Foi-lhe esmagada a vida. Inútil, porém? Não, mil vezes não! Deu a sua vida, morreu, para que outros vivam. O esmagar de sua própria vida se tornou o meio pelo qual a mesma é perpetuada, enobrecida. Era a vida da semente; agora ajuda a manter a de uma alma, um ser feito à imagem de Deus. A morte enriqueceu-a, glorificou-a, tornou-a útil à humanidade.

Poucas vidas são verdadeira e perduravelmente valiosas para a humanidade até que sejam esmagadas, moídas. É nas profundas experiências da vida que os homens encontram a Deus. É quando as águas cobrem a alma que se edifica o caráter.

A dor, a decepção, o sofrimento, são hábeis servos de Deus. São eles os dias sombrios que trazem os aguaceiros de bênçãos, fazendo a semente germinar e produzir frutos.

O problema do sofrimento será talvez insondável em seus aspectos mais profundos. Algumas coisas, porém, são nos claras. O sofrimento tem um definido propósito no plano de Deus. Abranda o espírito. Prepara a alma para uma mais profunda compreensão da vida. Inspira simpatia para com os outros. Faz com que se ande mansamente diante de Deus e dos homens.

Só os que têm sofrido viveram. Só viveu aquele que amou. São inseparáveis as duas coisas. O amor inspira sacrifícios. Estes exigem muitas vezes sofrimentos. Não que requeira necessariamente sofrimento físico. Pois a mais elevada espécie de sofrimento é alegre, santa, exaltada. Uma mãe pode sacrificar-se pelo filho, sofrer, mas fá-lo de boa vontade, contente. O amor reputa o sacrifício um privilégio. “Regozijo-me agora no que padeço por vós”, diz Paulo, “e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo Seu corpo, que é a igreja”. Col. 1:24. A lição do sofrimento não foi aprendida enquanto não aprendemos a nele nos regozijar. E podemos regozijar-nos quando surge em nós a idéias de que “como as aflições de Cristo abundam em nós, assim também a nossa consolação abunda por meio de Cristo”; que, ao sermos “atribulados, é para a vossa consolação e salvação”; que o próprio Cristo “aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu”; e que porque “Ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados”; quando se nos torna claro que nossos sofrimentos devidamente suportados e compreendidos, são permitidos para que nós, como o sumo-sacerdote outrora, nos possamos “compadecer” “ternamente dos ignorantes e errados; pois também ele mesmo está rodeado de fraqueza”. II Cor. 1:5 e 6; Heb. 5:8; 2:18; 5:2. Tal sofrimento não é doloroso, mas feliz. Cristo, “pelo gozo que Lhe estava proposto, suportou a cruz”. Heb. 12:2.

O sofrimento tem sido, em todos os tempos, a sorte do povo de Deus. Faz parte do plano do Senhor. Unicamente mediante o sofrimento podem certas lições ser aprendidas. Só assim podemos, em lugar de Cristo, ministrar como devemos em favor daqueles que estão passando pelo vale da aflição e “consolar os que estiverem em algumas tribulações, com a consolação com que nós mesmos somos consolados de Deus”,

II Cor. 1:4. Assim encarado, o sofrimento se torna uma bênção. Habilita a pessoa a servir por uma maneira em que não seria possível fazê-lo sem esta experiência. Torna-se um privilégio “não somente crer nEle, como também padecer por Ele”. Fil. 1:29.

Para compreender quão necessário é “a comunicação de Suas aflições”, não precisamos senão lançar os olhos para a vida de alguns dos santos de Deus nos séculos passados. Recordai aqueles três terríveis dias que Abraão passou depois que Deus lhe dissera que matasse o filho. Evocai a noite da angústia de Jacó – a noite que transformou um pecador em um santo. Rememorai o tempo que José  passou na cisterna esperando a morte; sua angústia ao ser vendido como escravo; sua experiência na prisão, ocasionada por falsas acusações e amarga ingratidão. Volvei a mente às perseguições sofridas por Jeremias; ao tremendo dia em que Ezequiel teve ordem de ir pregar em vez de permanecer ao lado de sua esposa moribunda; à sombria e tremenda experiência de João Batista na prisão quando sua alma foi assaltada pela dúvida; ao espinho na carne do apóstolo Paulo, o qual não lhe foi permitido que se retirasse. E todavia de todas essas provações saíram vidas mais nobres, mais amplas visões, mais vasta utilidade. Sem isso, esses santos nunca teriam podido fazer a obra que realizaram, nem haveriam suas vidas se tornado a inspiração que hoje constituem. Como as flores que exalam mais delicioso aroma ao serem esmagadas, assim pode uma grande dor enobrecer e embelezar uma vida, sublimando-a para o serviço de Deus.

A farinha empregada nas ofertas de manjares não devia ser oferecida seca; precisava ser misturada com óleo, ou com ele ungida. Lev. 2:4 e 5. O azeite é o Espírito de Deus. Só quando a vida é santificada pelo Espírito, com Ele misturada, ungida com ele, pode ser agradável a Deus. O sofrimento por si ou de si mesmo, pode não ser uma benção. Talvez leve apenas ao endurecimento do coração, à amargura do espírito. Mas, ao tomar o Espírito de Deus posse da alma, ao permear a vida o doce Espírito do Mestre, a fragrância de uma vida consagrada se torna manifesta.

Como o incenso oferecido cada manhã e tarde no lugar santo era emblemático da justiça de Cristo, que subia com as orações do sacerdote em favor da nação, como cheiro suave ao Senhor, assim o incenso oferecido com cada oferta de manjares era eficaz para o indivíduo. Fazia uma aplicação pessoal daquilo que de outro modo era apenas geral. No sacrifício da manha e da tarde, o sacerdote orava pelo povo. Na oferta de manjares o incenso era aplicado à alma individual.

No espírito dos israelitas, o incenso e a oração associavam-se estreitamente. De manhã e à tarde, quando o incenso – que simbolizava os méritos e intercessão de Cristo – ascendiam no lugar santo, através de toda a nação eram oferecidas orações. Não só o incenso enchia o lugar santo e o santíssimo, mas seu perfume era notado nos arredores do tabernáculo, até longe. Por toda parte dava sinal de oração, chamando os homens à comunhão com Deus.

A oração é essencial ao cristianismo. É a respiração da alma. É o elemento vital em todas as atividades da vida. Tem de acompanhar cada sacrifício, tornar fragrante cada oferta. Não é tão só um importante ingrediente do cristianismo – é sua própria vida. Sem seu fôlego vital, cessa bem depressa a vida; e com a cessação da vida, inicia-se a decomposição, e aquilo que deveria ser um cheiro de vida para vida, torna-se cheiro de morte para a morte.

“Cada um será salgado com fogo, e cada sacrifício será salgado com sal”. Mar. 9:49. O fogo purifica, o sal conserva. Ser salgado com fogo quer dizer não só purificação, mas também conservação. Deus quer um povo puro, povo cujos pecados estão perdoados. Mas não basta achar-se perdoado e purificado. O poder de Deus, para guardar do pecado, tem de ser aceito. Temos de ser conservados puros. O fogo não deve ser fogo destruidor, mas purificador. Temos de ser primeiro purificados, depois guardados, conservados. “Salgados com fogo!” “Salgados com sal!” Purificado e conservado puro! Admirável providência!

A oferta de manjares, conquanto não seja a mais importante, encerra lindas lições para a alma devota. Tudo que possuímos deve achar-se sobre o altar. Tudo que temos pertence a Deus. E Deus purificará e guardará o que Lhe pertence. Oxalá habitem conosco estas lições.

Tradução e impressão pertencentes à:

CASA PUBLICADORA BRASILEIRA

Santo André, E. F. S. J., São Paulo