Estudos

A Imutável Lei de Deus

“Abriu-se no Céu o templo de Deus e a arca do Seu concerto foi vista no Seu templo.” (Apoc. 11:19). A arca da aliança de Deus está no santo dos santos, ou lugar santíssimo, o segundo compartimento do santuário. No serviço do tabernáculo terrestre, o qual servia como “exemplar e sombra das coisas celestiais”, este compartimento podia ser penetrado apenas no grande dia da expiação, para a purificação do santuário. Portanto, o anúncio de que o templo de Deus fora aberto no Céu e a arca de Sua aliança fora ali vista aponta para a abertura do lugar santíssimo do santuário celestial, em 1844, quando Cristo ali entrou para efetuar a obra de encerramento da expiação. Aqueles que pela fé acompanharam seu grande Sumo Sacerdote, quando Ele deu início ao Seu ministério no lugar santíssimo, contemplaram a arca de Sua aliança. Depois de haver estudado o assunto do santuário, chegaram à compreensão sobre a mudança operada no ministério do Salvador, e viram-No agora oficiando diante da arca de Deus, empenhando Seu sangue em favor dos pecadores.

A arca do tabernáculo terrestre continha as duas tábuas de pedra, sobre as quais estavam inscritos os preceitos da lei de Deus. A arca era meramente um recipiente das tábuas da lei, mas a presença desses divinos preceitos lhe dava valor e sacralidade. Quando o templo celestial foi aberto, pôde ser vista a arca da aliança. No Santo dos santos, no santuário celeste, a divina lei acha-se preservada sagradamente — a lei que foi pronunciada pelo próprio Deus em meio aos trovões do Sinai e escrita por Seu próprio dedo em tábuas de pedra. (Êxo. 31:12-18).

A lei de Deus no santuário celeste é o grande original, a partir do qual os preceitos inscritos nas tábuas de pedra, registrados por Moisés no Pentateuco, eram um transcrito infalível. Aqueles que compreenderam esse importante ponto foram assim levados a ver o sagrado e imutável caráter da divina lei. Perceberam, como nunca dantes, a força das palavras do Salvador: “Até que o céu e a Terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei.” (Mat. 5:18). A lei de Deus, sendo a revelação de Sua vontade, um translado de Seu caráter, deve perdurar para todo o sempre, “como uma fiel testemunha no Céu”. Nenhum mandamento foi anulado; nenhum jota ou til foi mudado. Diz o salmista: “Para sempre, ó SENHOR, a Tua palavra permanece no Céu.” São “fiéis todos os Seus mandamentos. Permanecem firmes para todo o sempre” (Sal. 119:89; 111:7 e 8).

No próprio âmago do decálogo acha-se o quarto mandamento, conforme foi primeiramente proclamado: “Lembra-te do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a Terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou.” (Êxo. 20:8-11).

O Espírito de Deus impressionou o coração daqueles que estudavam a Sua Palavra. Incidiu-lhes sobre o espírito a persuasão de que haviam ignorantemente transgredido esse mandamento por desrespeitar o dia de descanso do Criador. Então começaram a examinar as razões para a observância do primeiro dia da semana, em lugar do dia que Deus havia santificado. Não puderam achar qualquer evidência nas Escrituras de que o quarto mandamento houvesse sido abolido ou de que o sábado fora mudado. A bênção que primeiramente santificava o sétimo dia nunca havia sido removida. Haviam eles, com sinceridade, buscado conhecer e cumprir a vontade divina. Agora, vendo-se como transgressores de Sua lei, a tristeza encheu-lhes o coração e eles manifestaram lealdade para com Deus observando Seu santo sábado.

Numerosos e persistentes foram os esforços feitos no sentido de dar fim à sua fé. Ninguém poderia deixar de ver que se o santuário terrestre era uma figura ou modelo do celestial, a lei depositada na arca terrena era uma cópia exata da lei que se encontra na arca celestial; e que a aceitação da verdade do santuário celeste envolvia o reconhecimento dos reclamos da lei de Deus, e da obrigatoriedade do sábado do quarto mandamento. Aí estava o segredo da amarga e determinada oposição à harmoniosa exposição das Escrituras, que revelavam o ministério de Cristo no santuário celestial. Os homens procuravam fechar a porta que Deus havia aberto, e abrir a que Ele havia fechado. Mas “O que abre, e ninguém fecha; e fecha, e ninguém abre”, havia afirmado: “Eis que diante de ti pus uma porta aberta, e ninguém a pode fechar.” (Apoc. 3:7 e 8). Cristo abrira a porta, ou o ministério, do lugar santíssimo. Luz estava brilhando dessa porta aberta no santuário celestial, e foi mostrado o quarto mandamento incluso na lei que ali estava custodiada. O que Deus estabeleceu nenhum homem pode destruir.

Aqueles que aceitaram a luz referente à mediação de Cristo e à perpetuidade da lei de Deus descobriram que essas eram verdades apresentadas no capítulo 14 de Apocalipse. As mensagens desse capítulo constituem uma tríplice advertência que deve preparar os habitantes da Terra para a segunda vinda do Senhor. O anúncio: “Vinda é a hora do Seu juízo”, aponta para a obra de encerramento do ministério de Cristo pela salvação dos homens. Apregoa uma verdade que deve ser proclamada até que a intercessão do Salvador se encerre e Ele volte à Terra para buscar Seu povo. A obra do juízo, que começou em 1844, deve continuar até que os casos de todos estejam decididos, tanto dos vivos como dos mortos. Daí se conclui que ela se estenderá até ao final do tempo de graça para os seres humanos. Para que os homens possam ficar preparados e estarem em pé no juízo, a mensagem ordena temer a Deus e dar-Lhe glória, “e adorar Aquele que fez o céu e a Terra, e o mar, e as fontes das águas”. O resultado da aceitação destas mensagens é dado nas palavras: “Aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus.” Com o objetivo de se prepararem para o juízo, é necessário que os homens guardem a lei de Deus. Essa lei será o padrão de caráter no juízo. Declara o apóstolo Paulo: “Todos os que sob a lei pecaram pela lei serão julgados… No diaem que Deushá de julgar os segredos dos homens por Jesus Cristo.” E diz mais: “Os que praticam a lei hão de ser justificados” (Rom. 2:12-16). A fé é essencial a fim de se prestar obediência à lei de Deus; pois “sem fé é impossível agradar-Lhe”. “E tudo que não é de fé, é pecado.” (Heb. 11:6; Rom. 14:23).

Mediante a mensagem do primeiro anjo, os homens são convocados a temer a Deus e dar-Lhe glória, e adorá-Lo como o Criador do céu e da Terra. Para fazer isso, devem obedecer à Sua lei. Diz o sábio: “Teme a Deus, e guarda os Seus mandamentos; porque este é o dever de todo o homem.” (Ecl. 12:13). Sem a obediência aos Seus mandamentos nenhum culto pode ser aprazível a Deus. “Este é o amor de Deus: que guardemos os Seus mandamentos.” “O que desvia os seus ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável.” (I João 5:3; Prov. 28:9).

O dever de adorar a Deus está baseado no fato de que Ele é o Criador, e que a Ele todos os outros seres devem sua existência. E, na Bíblia, onde quer que seja apresentado Seu direito à reverência e culto acima dos deuses dos pagãos, são citadas as provas de Seu poder criador. “Todos os deuses dos povos são coisas vãs; mas o SENHOR fez os céus.” (Sal. 96:5). “A quem, pois, Me fareis semelhante, para que lhe seja semelhante? – diz o Santo. Levantai ao alto os vossos olhos, e vede quem criou estas coisas.” “Assim diz o SENHOR que tem criado os céus, o Deus que formou a Terra, e a fez; …Eu sou o SENHOR, e não há outro.” (Isa. 40:25 e 26; 45:18). Diz o salmista: “Sabei que o SENHOR é Deus: foi Ele, e não nós que nos fez povo Seu.” “Ó, vinde, adoremos, e prostremo-nos; ajoelhemo-nos diante do SENHOR que nos criou.” (Sal. 100:3; 95:6). E os seres santos que adoram a Deus nos Céus declaram porque Lhe é devida sua homenagem: “Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque Tu criaste todas as coisas.” (Apoc. 4:11).

Em Apocalipse 14, os homens são convocados a adorar o Criador; e a profecia destaca uma classe que, como resultado da tríplice mensagem, estão guardando os mandamentos de Deus. Um desses mandamentos aponta diretamente para Deus como sendo o Criador. O quarto preceito declara: “O sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus… porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a Terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou.” (Êxo. 20:10 e 11). Concernente ao sábado, diz o SENHOR também ser ele “um sinal… para que saibais que Eu sou o SENHOR vosso Deus” (Ezeq. 20:20). E a razão proporcionada é: “Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a Terra, e ao sétimo dia descansou e restaurou-Se.” (Êxo. 31:17).

“A importância do sábado como memorial da criação é que ele mantém sempre presente a verdadeira razão de se prestar culto a Deus”, porque Ele é o Criador e nós as Suas criaturas. “O sábado, portanto, está no próprio fundamento do culto divino, pois ensina essa grande verdade da maneira mais impressiva, e nenhuma outra instituição faz isso. A verdadeira base para o culto divino, não meramente a adoração prestada no sétimo dia, mas de todo o culto, encontra-se na distinção entre o Criador e Suas criaturas. Esse fato importante nunca poderá tornar-se obsoleto, e jamais deverá ser esquecido.” Foi para manter essa verdade sempre na mente dos homens que Deus instituiu o sábado no Éden; e enquanto o fato de que Ele é o nosso Criador continuar a ser o motivo pelo qual devamos adorá-Lo, permanecerá o sábado como seu sinal e memorial. Houvesse o sábado sido universalmente observado, os pensamentos e afeições dos homens teriam sido dirigidos ao Criador como objeto de reverência e culto, e nunca teria havido um idólatra, ateu ou incrédulo. A observância do sábado é um sinal de lealdade para com o verdadeiro Deus, “Aquele que fez o céu, e a Terra, e o mar, e as fontes das águas”. Sucede que a mensagem que ordena aos homens adorar a Deus e guardar Seus mandamentos, convoca-os especialmente para a obediência ao quarto mandamento.

Em contraste com aqueles que guardam os mandamentos de Deus e têm a fé de Jesus, o terceiro anjo aponta para outra classe de homens, contra os erros dos quais pronuncia solene e temível advertência: “Se alguém adorar a besta, e a sua imagem, e receber o sinal na sua testa, ou na sua mão, também o tal beberá do vinho da ira de Deus.” (Apoc. 14: 9 e 10). É necessária uma correta interpretação dos símbolos utilizados nessa mensagem. O que é representado pela besta, pela imagem e pelo sinal?

A cadeia de profecias na qual se encontram estes símbolos começa no capítulo 12 de Apocalipse, com o dragão que procurava destruir Cristo em Seu nascimento. Declara-se que o dragão é Satanás (Apoc. 12:9); foi ele que atuou sobre Herodes a fim de matar o Salvador. Mas o principal agente de Satanás, ao fazer guerra contra Cristo e Seu povo, durante os primeiros séculos da era cristã, foi o Império Romano, no qual o paganismo era a religião dominante. Assim, conquanto o dragão represente primeiramente Satanás, é, em sentido secundário, símbolo de Roma pagã.

No capítulo 13 é descrita outra besta “semelhante ao leopardo”, à qual o dragão deu “o seu poder, o seu trono, e grande poderio”. Esse símbolo, como a maioria dos protestantes tem crido, representa o papado, que foi o sucessor do poder, trono e autoridade uma vez possuídos pelo antigo Império Romano. Da besta semelhante ao leopardo é declarado: “Foi-lhe dada uma boca para proferir grandes coisas e blasfêmias… E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do Seu nome, e do Seu tabernáculo, e dos que habitam no Céu. E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação.” Essa profecia, que é quase idêntica àquela descrita como ponta pequena de Daniel 7, aponta inquestionavelmente ao papado.

“Deu-se-lhe poder para continuar por quarenta e dois meses.” E diz o profeta, “vi uma de suas cabeças como ferida de morte”. E novamente: “Se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá; se alguém matar à espada, necessário é que à espada seja morto”. Os quarenta e dois meses são o mesmo que “tempo, tempos, e metade de um tempo”, três anos e meio ou 1.260 dias de Daniel 7, tempo durante o qual o poder papal oprimiria o povo de Deus. Esse período, conforme declarado nos capítulos precedentes, começou com o estabelecimento do papado em 538 d. C., e encerrou-se em 1798. Nessa ocasião, quando o papado foi abolido e o papa levado cativo pelo exército francês, o poder papal sofreu a ferida mortal e cumpriu-se a predição: “Se alguém leva em cativeiro, em cativeiro irá.”

Nesse ponto, outro símbolo é introduzido. Diz o profeta: “Vi subir da Terra outra besta, e tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro.” (Apoc. 13:11). Tanto a aparência dessa besta como a maneira de seu surgimento indicam que a nação que ela representa é diferente daquelas identificadas sob os símbolos precedentes. Os grandes reinos que têm governado o mundo foram apresentados ao profeta Daniel como feras predadoras, que se levantavam quando “os quatro ventos do céu combatiam no mar grande” (Dan. 7:2). Em Apocalipse 17, um anjo esclareceu que águas representam “povos, e multidões, e nações, e línguas” (verso 15). Ventos são símbolos de conflitos. Os quatro ventos do céu combatendo no grande mar representam as terríveis cenas de conquista e revolução, pelas quais os reinos conquistam o poder.

Mas a besta com chifres semelhantes aos de um cordeiro foi vista a “subir da terra”. Em lugar de aniquilar outras potências para se estabelecer, a nação assim representada deve surgir em território previamente desabitado, crescendo gradual e pacificamente. Não poderia, portanto, levantar-se ela dentre as nações densamente povoadas e beligerantes do Velho Mundo — aquele alvoroçado mar de “povos, e multidões, e nações, e línguas”. Esse país deve ser procurado no Continente Ocidental.

Que nação do Novo Mundo se achava, em 1798, assomando ao poder, acenando com indicadores de força e grandeza, e atraindo a atenção do mundo? A aplicação do símbolo não admite dúvida. Uma nação, e apenas uma, atende às especificações dessa profecia que aponta insofismavelmente para os Estados Unidos da América do Norte. Repetidamente o pensamento, quase que as exatas palavras do escritor sagrado, parecem ser inconscientemente empregadas pelo orador e o historiador para descreverem o surgimento e o desenvolvimento dessa nação. A besta foi vista a “subir da terra”; e, de acordo com os tradutores, a palavra aqui vertida por “subir” significa literalmente “crescer ou brotar como uma planta”. E, como já tivemos a oportunidade de ver, a nação deveria surgir num território previamente desabitado. Um destacado escritor, descrevendo o surgimento dos Estados Unidos, fala do “mistério de sua origem do vazio” e diz: “Semelhantemente a uma semente silenciosa, desenvolvemo-nos num império.” Um jornal europeu, em 1850, falou dos Estados Unidos como um emergente império maravilhoso, e “em meio ao silêncio da terra, crescendo diariamente em poder e orgulho.” Edward Everett, numa palestra sobre os peregrinos fundadores de seu país, disse: “Não procuraram eles um lugar retirado, inofensivo por sua obscuridade e protegido pela distância das perseguições dos déspotas, onde a pequenina igreja de Leyden pudesse desfrutar liberdade de consciência? Eis as poderosas regiões sobre as quais, em conquista pacífica… fincaram os pavilhões da cruz!”

 “E tinha dois chifres semelhantes aos de um cordeiro.” Os chifres semelhantes aos do cordeiro indicam juventude, inocência e docilidade, representando de maneira adequada o caráter dos Estados Unidos, quando apresentados ao profeta como estando a “subir” em 1798. Os cristãos exilados que fugiram primeiramente para a América, buscaram asilo contra a opressão real e a intolerância sacerdotal, e determinaram-se a estabelecer um governo sobre o vasto fundamento da liberdade civil e religiosa. A Declaração de Independência estabelece a grande verdade de que “todos os homens são criados iguais”, e dotados do inalienável direito à “vida, liberdade, e busca de felicidade”. E a Constituição garante ao povo o direito de estabelecer um governo autônomo, cuidando para que representantes eleitos pelo voto popular formulem e administrem as leis. Garantiu-se também a liberdade de fé religiosa, sendo permitido a todo homem adorar a Deus de acordo com os ditames de sua consciência. Republicanismo e protestantismo tornaram-se os princípios fundamentais da nação. Esses princípios são o segredo de seu poder e prosperidade. Os oprimidos e desamparados de toda a cristandade têm-se voltado para essa terra com interesse e esperança. Milhões têm chegado às suas praias e os Estados Unidos conquistaram lugar preeminente entre as mais poderosas nações da Terra.

Mas a besta de chifres semelhantes aos do cordeiro “falava como o dragão. E exerce todo o poder da primeira besta na sua presença, e faz que a Terra e os que nela habitam adorem a primeira besta, cuja chaga mortal fora curada. E… dizendo aos que habitam na Terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e vivia” (Apoc. 13:11-14).

Os chifres semelhantes aos do cordeiro e a voz de dragão desse símbolo apontam para uma impressionante contradição entre o que a nação assim representada professa e o que ela pratica. O “falar” de uma nação é a ação de suas autoridades legislativas e judiciárias. Por tal ação contradirá os princípios liberais e pacíficos que estabeleceu como fundamento de sua política. A predição de que ele falará “como o dragão” e exercerá “todo o poder da primeira besta”, antecipa claramente o desenvolvimento de um espírito intolerante e perseguidor que foi manifestado através das nações representadas pelo dragão e a besta semelhante ao leopardo. E a declaração de que a besta de dois chifres faz com “que a Terra e os que nela habitam adorem a primeira besta”, indica que a autoridade dessa nação deve ser exercida para impingir alguma observância que seja um ato de homenagem ao papado.

Tal atitude seria diretamente contrária aos princípios desse governo, ao caráter de suas instituições livres, às diretas e solenes afirmações da Declaração da Independência e da Constituição. Os fundadores da nação procuraram sabiamente evitar o uso do poder secular por parte da igreja, com seu inevitável resultado — intolerância e perseguição. A Constituição estabelece que “o Congresso não fará nenhuma lei respeitante ao estabelecimento da religião ou à proibição de seu livre exercício”, e que “nenhuma prova de cunho religioso será jamais requerida como qualificativo para qualquer cargo de confiança pública nos Estados Unidos”. Somente em flagrante violação dessas salvaguardas da liberdade da nação, pode qualquer observância religiosa ser infligida pela autoridade civil. Mas a inconsistência de tal postura não é maior do que o que aquela representada pelo símbolo. É a besta de chifres semelhantes aos do cordeiro, sob profissão de ser pura, benévola e inofensiva, que fala como o dragão.

“Dizendo aos que habitam na Terra que fizessem uma imagem à besta.” Aqui é claramente apresentada a forma de governo na qual o poder legislativo procede do povo; a mais convincente prova de que os Estados Unidos são a nação denotada na profecia.

Mas o que é a “imagem à besta?” E como deverá ela ser formada? A imagem é feita pela besta de dois chifres, e é uma imagem à primeira besta. É também chamada a imagem da besta.  Por conseguinte, para sabermos o que é a imagem e como ela é formada, precisamos estudar as características da própria besta — o papado. Quando a igreja primitiva se corrompeu em razão do afastamento da simplicidade do evangelho e a aceitação de ritos e costumes pagãos, ela perdeu o Espírito e o poder de Deus. E a fim de controlar a consciência do povo, buscou apoio no poder secular. O resultado dessa atitude foi o papado, uma igreja que controlava o poder do Estado e empregava-o para favorecer suas próprias finalidades, especialmente na punição da “heresia”. Para que os Estados Unidos formem uma imagem da besta, o poder religioso precisa controlar o poder civil, de forma que a autoridade do Estado seja empregada pela igreja com o propósito de atingir seus próprios objetivos.

Sempre que a Igreja obteve poder secular, ela o empregou para punir os que discordassem de suas doutrinas.  As igrejas protestantes que têm seguido os passos de Roma, mediante a formação de alianças com os poderes seculares, manifestam o mesmo desejo de restringir a liberdade de consciência.  Um exemplo disso pode ser visto na prolongada perseguição aos dissidentes, feita pela Igreja Anglicana. Durante os séculos XVI e XVII, milhares de ministros não-conformistas foram forçados a deixar suas igrejas, e muitos, tanto pastores como povo, foram sujeitos a multas, prisão, tortura e martírio.

Foi a apostasia que levou a igreja primitiva a procurar ajuda no governo civil e isso preparou o caminho para o desenvolvimento do papado — a besta. Paulo disse que havia de vir “a apostasia”, e revelado “o homem do pecado” (II Tess. 2:3). Assim a apostasia na igreja preparará o caminho para a formação da imagem da besta. E a Bíblia declara que antes da vinda do Senhor haverá um estado de declínio religioso semelhante à dos primeiros séculos. “Nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela.” (II Tim. 3:1-5). “Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios.” (I Tim. 4:1). Satanás operará “com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça”. E todos os que “não receberam o amor da verdade para se salvarem”, serão deixados livres para aceitar a “operação do erro, para que creiam a mentira” (II Tess. 2:9-11). Quando tal estado de impiedade for alcançado serão manifestos os mesmos resultados havidos nos primeiros séculos.

A ampla diversidade de crenças nas igrejas protestantes é vista por muitos como uma prova definitiva de que nenhum esforço para assegurar uma uniformidade forçada poderá jamais ser empreendido. Mas tem havido por anos, nas igrejas de fé protestante, um sentimento forte e crescente em favor de uma união baseada em pontos comuns de doutrina. Para assegurar tal adesão, deve ser evitada toda discussão sobre assuntos em que não haja concordância, a despeito de sua importância do ponto de vista bíblico.

Charles Beecher, num sermão pronunciado em 1846, declarou que o ministério das “denominações evangélicas protestantes” é “não apenas formado sob terrível pressão do simples temor humano, mas também vive, move-se e respira num ambiente de coisas radicalmente corrompidas, e a cada instante apela para todo o elemento mais rasteiro de sua natureza, com o fito de esconder a verdade e curvar os joelhos ao poder da apostasia. Não foi esse o modo como as coisas ocorreram com Roma? Não estamos nós andando pelos seus caminhos uma vez mais? E o que podemos ver justamente diante de nós? Outro concílio geral! Uma convenção mundial! Uma aliança evangélica e credo universal!” Quando isso for conseguido, então, num esforço para garantir completa uniformidade, haverá apenas um passo para se recorrer à força.

Quando as principais igrejas dos Estados Unidos, unindo-se em pontos doutrinários comuns entre elas, influenciarem o Estado para impor seus decretos e apoiar suas instituições, então a América protestante formará uma imagem da hierarquia romana, e a aplicação de penas civis sobre os dissidentes será inevitavelmente o resultado.

A besta de dois chifres “faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita ou nas suas testas; para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome” (Apoc. 13:16 e 17). A advertência do terceiro anjo é: “Se alguém adorar a besta, e a sua imagem, e receber o sinal na sua testa, ou na sua mão, também o tal beberá do vinho da ira de Deus.” “A besta” mencionada nessa mensagem, cuja adoração é imposta pela besta de dois chifres, é a primeira ou a besta semelhante ao leopardo, de Apocalipse 13 — o papado. A “imagem da besta” representa a forma de protestantismo apostatado que será desenvolvida quando as igrejas protestantes procurarem o auxílio do poder civil para impor seus dogmas. A “marca da besta” fica ainda por ser definida.

Depois da advertência contra a adoração da besta e sua imagem, a profecia declara: “Aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus, e a fé de Jesus.” Considerando que aqueles que guardam os mandamentos de Deus são assim colocados em contraste com os que adoram a besta e sua imagem e recebem o seu sinal, conclui-se que a observância da lei de Deus, por um lado, e sua violação, por outro, deverá distinguir entre os adoradores de Deus e os adoradores da besta.

A característica especial da besta e, portanto, de sua imagem, é a transgressão dos mandamentos de Deus. Acerca do pequeno chifre, o papado, diz o profeta Daniel: “Cuidará em mudar os tempos e a lei.” (Dan. 7:25). E Paulo qualificou esse mesmo poder como “o homem do pecado”, que pretenderia exaltar-se acima de Deus. Uma profecia é o complemento da outra. Unicamente com a alteração da lei de Deus poderia o papado exaltar-se acima do Senhor. Quem quer que conscientemente observe uma lei assim alterada estará prestando suprema honra àquele poder pelo qual a mudança foi efetuada. Tal ato de obediência às leis papais seria um sinal de fidelidade ao papa em lugar de Deus.

O papado tentou mudar a lei de Deus. O segundo mandamento, que proíbe a adoração de imagens, foi retirado da lei, e o quarto foi mudado com o fito de autorizar a observância do primeiro em lugar do sétimo dia como sábado. Mas os papistas insistem, como razão para a omissão do segundo mandamento, ser ele desnecessário por estar incluso no primeiro, e que eles estão dando à lei exatamente aquilo que Deus pretendeu fazer com que os homens entendessem. Essa não pode ser a mudança predita pelo profeta. Uma mudança deliberada, intencional, é apresentada. “Cuidará em mudar os tempos e a lei.” A mudança no quarto mandamento cumpre exatamente a profecia. A única autoridade alegada para isso é a da Igreja. Aqui o poder papal se coloca abertamente acima de Deus.

Enquanto os adoradores de Deus distinguir-se-ão especialmente pelo respeito ao quarto mandamento, uma vez que esse é o sinal de Seu poder criador, e testemunha de Seu direito à reverência e homenagem do homem, os adoradores da besta destacar-se-ão por seus esforços voltados à derrubada do memorial do Criador e à exaltação de uma instituição romana. Foi por sua posição em favor do domingo que o papado começou a fazer suas arrogantes pretensões. O primeiro recurso por ele solicitado ao poder do Estado foi para impor a observância do domingo como “o dia do Senhor”. Mas a Bíblia aponta para o sétimo dia, e não o primeiro, como o dia do Senhor. Disse Cristo: “O Filho do homem é Senhor até do sábado.” O quarto mandamento declara: “O sétimo dia é o sábado do SENHOR.” E pelo profeta Isaías o SENHOR o chama: “Meu santo dia.” (Mar. 2:28; Isa. 58:13).

A reivindicação, tantas vezes exposta, de que Cristo mudou o sábado, é refutada por Suas próprias palavras. Em Seu sermão no monte, disse Ele: “Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a Terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido. Qualquer pois que violar um destes mais pequenos mandamentos, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos Céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos Céus.” (Mat. 5:17-19).

É fato geralmente aceito pelos protestantes que as Escrituras não autorizam em nenhuma parte a mudança do sábado. Isso se encontra francamente declarado nas publicações editadas pela Sociedade Americana de Tratados e pela União Americana das Escolas Dominicais. Uma dessas obras reconhece “o completo silêncio do Novo Testamento no que respeita a um mandamento explícito para o domingo ou a regras definidas para a sua observância.”

Outra diz: “Até ao tempo da morte de Cristo, nenhuma mudança havia sido feita no dia”; e, “até onde é mostrado pelo registro, eles [os apóstolos] não deram qualquer mandamento explícito ordenando o abandono do sábado do sétimo dia, e sua observância no primeiro dia da semana.”

Os católicos romanos reconhecem que a mudança do sábado foi feita por sua igreja e declaram que os protestantes, ao observarem o domingo, estão reconhecendo o poder da igreja romana. No Catecismo Católico da Religião Cristã, em resposta a uma pergunta sobre o dia a ser observado em obediência ao quarto mandamento, é feita esta declaração: “Durante a antiga lei, o sábado era o dia santificado, mas a igreja, instruída por Jesus Cristo, e dirigida pelo Espírito de Deus, substituiu o sábado pelo domingo; assim agora santificamos o primeiro e não o sétimo dia. Domingo significa agora dia do Senhor.”

Como sinal da autoridade da Igreja Católica, os escritores papistas citam “o próprio ato da mudança do sábado para o domingo, que os protestantes admitem… porque ao guardarem estritamente o domingo, reconhecem o poder da igreja de ordenar festas e impô-las sob pena de o infrator incorrer em pecado.” O que é, então, a mudança do sábado senão o sinal da autoridade da Igreja de Roma ou “a marca da besta”?

A igreja de Roma não abriu mão de suas reivindicações à supremacia. E quando o mundo e as igrejas protestantes aceitam um dia de repouso de sua criação, conquanto rejeitando o sábado bíblico, admitem virtualmente essas pretensões. Podem invocar a autoridade da tradição e dos pais da igreja para a mudança, mas, assim fazendo ignoram o próprio princípio que as separa de Roma, de que “A Bíblia, e a Bíblia só, é a religião dos protestantes”. Os papistas podem ver que elas estão se enganando a si mesmas, fechando espontaneamente os olhos para os fatos concernentes ao caso. À medida que o movimento pela imposição do domingo obtém favor, eles se congratulam sentindo-se seguros de que ele reunirá todo o mundo protestante sob a bandeira de Roma.

Os romanistas declaram que “a observância do domingo pelos protestantes é uma homenagem que prestam, apesar de tudo, à autoridade da Igreja [Católica].” A imposição da observância do domingo por parte das igrejas protestantes é uma obrigatoriedade ao culto do papado — à besta. Aqueles que, compreendendo os reclamos do quarto mandamento, optam por observar o falso sábado em lugar do verdadeiro, estão por isso mesmo prestando homenagem ao poder pelo qual somente é ele ordenado. Mas, no próprio ato de impor um dever religioso por meio do poder secular, as igrejas estariam formando uma imagem à besta. Daí a imposição da observância do domingo nos Estados Unidos ser uma compulsão à adoração da besta e sua imagem.

Mas os cristãos das gerações anteriores observaram o domingo, supondo que ao fazer assim estavam guardando o sábado bíblico. Há hoje cristãos verdadeiros em cada igreja, não se excetuando a comunidade católico-romana, que creem honestamente que o domingo é o sábado divinamente estabelecido. Deus aceita a sinceridade de propósito e integridade. Mas quando a observância do domingo se tornar obrigatória e o mundo for esclarecido com relação à obrigatoriedade do legítimo sábado, então quem quer que transgrida o mandamento de Deus para obedecer a um preceito que não possui mais elevada autoridade que a de Roma, estará honrando o papado acima de Deus. Estará prestando homenagem a Roma e ao poder que impinge uma instituição ordenada por Roma. Estará adorando a besta e sua imagem. Quando os homens rejeitam uma instituição que Deus declarou ser um sinal de Sua autoridade e honram em seu lugar aquela que Roma escolheu como sinal de sua supremacia, estão aceitando assim o sinal de fidelidade a Roma — “a marca da besta”. Quando essa questão for claramente colocada diante do povo e as pessoas levadas a escolher entre os mandamentos de Deus e os mandamentos dos homens, então, aqueles que continuarem seu curso de transgressão irão receber “o sinal da besta”.

A mais temível ameaça já dirigida aos mortais está contida na mensagem do terceiro anjo. Será um horrendo pecado que atrairá a ira de Deus, não misturada com misericórdia. Os homens não devem ser deixados em trevas com relação a esse importante assunto; a advertência contra tal pecado deve ser dada ao mundo antes da visitação dos juízos divinos, para que todos possam saber por que essas punições são derramadas, e tenham oportunidade de escapar deles. A profecia declara que o primeiro anjo faria o anúncio à “toda a nação, e tribo, e língua, e povo”. A advertência do terceiro anjo, que faz parte da tríplice mensagem, não deve ser menos disseminada. Ela é representada na profecia como sendo proclamada com grande voz, por um anjo voando pelo meio do céu e chamando a atenção do mundo.

No desenlace dessa contenda toda a cristandade estará dividida em duas grandes classes — os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus, e os que adoram a besta e sua imagem e recebem sua marca. Embora a igreja e o Estado conjuguem seus poderes a fim de obrigar “a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos”, a receberem “a marca da besta” (Apoc. 13:16), todavia o povo de Deus não a receberá. O profeta de Patmos contempla “os que saíram vitoriosos da besta, e da sua imagem, e do seu sinal, e do número de seu nome, que estavam junto ao mar de vidro, e tinham as harpas de Deus. E cantavam o cântico de Moisés e o cântico do Cordeiro” (Apoc. 15: 2 e 3).